Dialética
25/10/2009
É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste…
(Vinícius de Moraes)
A morte de “La Negra”
05/10/2009
Mercedes Sosa morreu ontem, domingo, dia 4 de outubro de 2009. Diga-se de passagem, um ano em que morre Mercedes Sosa e Mário Benedetti é um mau ano para ser latino-americano. Mas admito, a morte de “La Negra” me torturou durante toda a segunda-feira.
Quando vi a notícia, uma certa surpresa doída. Sabia que ela estava mal e que as chances de recuperação não eram grandes pelo que se comentava na imprensa. O desfecho era, de certa forma, natural. Ainda assim, o primeiro pensamento que me veio à cabeça foi simplesmente de que perdi uma chance incrível de ver Mercedes Sosa em Porto Alegre com meu pai, grande admirador da cantora.
Mas a morte de Mercedes calou mais fundo sobre mim nessa segunda-feira abafada e cinzenta, tão tipicamente porto-alegrense. Certamente não fui o único a sentir isso. Um sujeito, entre tantas mentes brilhantes e independentes-cool de Porto Alegre, ainda soltou a gracinha: o campus do vale pranteia a morte de Mercedes Sosa. Ora, o caríssimo que vá se roçar nas ostras, porque algumas músicas, filmes e livros tornam-se clichês não por um incontrolável desejo de pertencimento, mas simplesmente porque eles conseguem dizer algo para pessoas que ainda teimam em ter um propósito para suas medíocres vidas de classe média.
A verdade – dolorida como sempre – é que a morte de “La Negra” não me abala pela perda de uma cantora fantástica, da chamada “voz da América Latina”. O que me entristece é a atualidade de suas músicas, de suas interpretações sensacionais de composições de Violeta Parra, Sylvio Rodriguez, Atahualpa Yupanqui, entre outros. Cheguei a sentir uma pressão forte no peito ao perambular pelo meu bairro e perceber indigentes sendo tratados como paisagem ao som de “volver a los 17″. Todo aquele cenário parecia a desolação de uma derrota, de uma geração que depositou tantas esperanças no futuro…e o futuro dessa geração é a minha geração!
Talvez alguns dos problemas tenham sido realmente driblados…a era das ditaduras acabou e, tirando a melancólica aparição espectral do golpe de Estado hondurenho, a América Latina, em geral, vive momentos de recuperação da democracia. Ainda assim, a esperança de uma sociedade onde o amor se torne condição necessária para a sobrevivência é apenas uma quimera estúpida, uma espécie de ilusão de meia-dúzia de jovens, uma hiponguice qualquer.
A morte de “La Negra” é, para mim, a sensação de uma derrota…um amargor na boca, uma espécie de sensação de frustração que não passa por mim, mas por gerações inteiras. E me pergunto então: será que não passarei esse sentimento para gerações futuras? Até onde perdurará a sensação de derrota?
A verdade é que não sei. E, contudo, diante da incerteza sobre o futuro, me vejo sentado no quarto, escutando suas músicas, lembrando de meu pai, pensando em sua geração, em suas imensas e insuperáveis esperanças…é aí que penso: ao invés de depositar minhas derrotas na geração futura, por que não depositar minhas esperanças neles? Por que não esperar que eles aprendam com tamanha tradição de erros? E esperar que, ao ouvirem “La Negra”, consigam se desfazer do gosto amargo de derrota, da aflição e da pressão no peito. Que ao conhecerem suas músicas simplesmente possam entender porque tantas gerações querem depositar esperanças sobre eles.
Boas e bobas…
03/07/2009
“Boas e bobas são as coisas que penso quando penso em você.” (C. F. A.)
E de repente, não mais que de repente, percebo que não tenho anotadas frases de amor. Lembro de uma ou outra música mais melosa, mas a dor de cotovelo tinha mais espaço no meu gosto musical.
Percebo que invariavelmente apaixonado – e, tolice minha, lutando gradualmente contra essa paixão – não conheço músicas de amor. Que meus escritores favoritos são uns velhos amargos e melancólicos, que o romance é secundário, pois é sempre meloso.
Sem referências, sem notas de rodapé, sem post-its, sem músicas no mp3…recorro à tolice, aos trejeitos, aos olhares desviantes, à gaguejada. Percebo que sou mesmo um bobo. E gosto disso!
Greetings to the new brunette.
Liberdade com sabor de realidade
14/06/2009
Para mim, poucas definições sobre a liberdade têm o impacto que a música I’m Free, do The Who, tem.
Para quem não conhece, uma palhinha:
“I’m free, I’m free And freedom tastes like reality I’m free, I’m free And I’m waiting for you to follow me”Talvez o melhor plano de fuga de todos seja deparar-se com o real, transformá-lo, modificá-lo, alterá-lo, subvertê-lo. Transformar-lhe em verso, em prosa, pintá-lo em cores berrantes e chamativas.
Nada contra as fugas imaginárias. Pelo contrário! Imaginemos todas as nossas fugas, mas imaginemos elas com pés no chão. As cores que pintamos em nossa mente são tão lindas que nos assombram. Mas somente quando decidimos pintar os muros que nos cercam é que percebemos nosso potencial.
Mais bonito do que ainda poder se surpreender talvez seja poder surpreender a si mesmo.
P.S: Agora tenho um Twitter para poder fazer esses posts pseudo-enigmáticos. O problema é fazê-los em 120 caracteres.
Lento pero viene
18/05/2009
Morreu ontem, dia 17 de maio, o poeta e escritor uruguaio, Mario Benedetti. Admito nunca ter lido nada dele e, ainda assim, lamento a sua morte. Talvez por saber que sua poesia tenha sido uma arma tão dura para enfrentar o mundo real. Ou talvez por saber que sua pena tinha uma causa, um sentido, um devir.
A morte de Benedetti é, antes de mais nada, a morte de mais uma (entre tantas outras) perspectivas de futuro que se alimentam do humanismo. Que não vêem na modernidade apenas um claustrofóbico projeto de poder, mas também uma libertação em potencial.
Fica aqui um poema que tem sido bastante citado atualmente, tendo em vista a sua morte. Talvez para evitar de cair no vazio do niilismo, onde os trapézios não mais nos seguram.
Lento pero viene
lento pero viene
el futuro se acerca
despacio
pero viene
hoy está más allá
de las nubes que elige
y más allá del trueno
y de la tierra firme
demorándose viene
cual flor desconfiada
que vigila al sol
sin preguntarle nada
iluminando viene
las últimas ventanas
lento pero viene
el futuro se acerca
despacio
pero viene
ya se va acercando
nunca tiene prisa
viene con proyectos
y bolsas de semillas
con angeles maltrechos
y fieles golondrinas
despacio pero viene
sin hacer mucho ruido
cuidando sobre todo
los sueños prohibidos
los recuerdos yacentes
y los recién nacidos
lento pero viene
el futuro se acerca
despacio
pero viene
ya casi está llegando
con su mejor noticia
con puños con ojeras
con noches y con días
con una estrella pobre
sin nombre todavía
lento pero viene
el futuro real
el mismo que inventamos
nosotros y el azar
cada vez más nosotros
y menos el azar
lento pero viene
el futuro se acerca
despacio
pero viene
lento pero viene
lento pero viene
lento pero viene
De labio en labio, paso a paso, poco a poco…
12/05/2009
Salvador caminhou para a morte naquela triste manhã de março de 1974. Não caminhava com um olhar resignado, ou com aquela atitude arrogante de quem sabia que sua causa era justa. Caminhava com medo. O medo da morte pelo garrote vil lhe dominava, a ponto de seus olhos se encherem de lágrimas.
Salvador Puíg, com seus 20 e poucos anos, foi assassinado e teve medo até o último momento em que o garrote quebrou sua coluna. E talvez isso que seja interessante: em nenhum momento ele se propôs a ser mártir. Um exemplo análogo pode ser visto, Nicola Sacco e Bartolomeu Vanzetti foram condenados à morte (injustamente) em Boston, no ano de 1927. O medo da morte não os tornou menos simbólicos, menos mártires. Entretanto, a recusa ao martírio faz parte de sua atitude diante da execução da pena de morte a que foram condenados.
Como fazer para deixar de ser mártir? Que receitas são dadas por eles? Será que a característica essencial do martírio é temer o sacrifício? Ou será que a transformação em herói póstumo está além do interesse do morto? Não é todo sujeito que deixa uma carta-testamento, ou pronuncia célebres últimas palavras…entretanto, são tão mártires quanto quaisquer outros.
Talvez o exemplo de Salvador Puíg Antich seja significativo exatamente por permitir uma noção menos estilizada do mártir. Despido de auto-comiseração, ele é um inocente indo em direção à morte. E esse talvez seja o maior significado do martírio: a ausência de pena de si ao mesmo tempo em que não deseja a morte.
Laranja madura
05/05/2009
Essa música, do Ataulfo Alves, não sai da minha cabeça nos últimos dias. Recentemente vi um programa na televisão que falava que a sua inspiração para compor essa música foi… uma laranja madura na beira da estrada! Eu adoraria ter esse talento…fazer um samba de qualquer coisa que tivesse visto na rua. Carros, lixo, poluição…ok, acredito que uma laranja madura tem mais poesia do que isso tudo. Mas a sacada genial de alguém que consegue transformar a tal laranja madura na beira da estrada em um belo samba continua sendo invejável.
Isso faz com que eu pense em talentos que acho que tive um dia e que podia ter potencializado. Eu desenhava razoavelmente bem…quer dizer, nada demais, mas era uma atividade que eu gostava. Além disso, aprendi a tocar flauta doce e piano (era um teclado meio tosco, mas eu sabia um pouco). Depois tive uma época que adorava escrever… Bem, de todos os talentos, esse é o único que acabei alimentando até hoje, já que continuo escrevendo. Mas não é a mesma coisa…e para quem gostava de contos e romances, cair na historiografia é praticamente um retrocesso.
Tem alguns outros talentos que eu gostaria de ter, além de composição de sambas. Assobiar, por exemplo, seria um deles. Fotografia também seria legal. Instrumentos de percussão, com certeza! Algumas danças, possivelmente. E cozinhar, não posso esquecer de que gostaria de saber cozinhar bem (tenho certeza que devoraria livros de receitas)!
Bem, é inevitável pensar que há somente uma chance para despertar todos esses talentos…talvez alguns eu ainda consiga despertar, vai saber. Mas é provável que muitos deles eu projete em meus filhos e force-os viver em busca de meus talentos frustrados, como qualquer pai neurótico de bom coração faria.
Até lá, continuo cantando, pois não sei assobiar:
“Santo que vê muita esmola na sua sacola
Desconfia, e não faz milagres não
Gosto de Maria Rosa mas quem me dá prosa é Rosa Maria
Vejam só que confusão“
Um salto qualitativo quase mortal
02/05/2009
Ninguém costuma reparar muito, mas a primeira frase de Marx em “O Capital” diz que todo o início em uma ciência é difícil. Acho que dá para ir mais além de Marx e dizer…todo início é sempre difícil, independente se estamos falando de ciências, artes, relacionamentos, hobbies, etc. Esse blog não é exceção.
Esse blog toma como espírito a frase de Antônio Cândido sobre uma geração de intérpretes do Brasil. Refere-se, principalmente, à genialidade como atributo para a escrita. Entretanto, a genialidade sofre o problema de ser “única”, “singular”, “não transferível”…e dessa forma, os pobres mortais, sem conhecimento de ofício, são levados à ignorância, a uma patética tentativa de copiar o gênio sem nunca superá-lo.
Os saltos qualitativos mortais são formas de evitar a medíocridade. Mas tudo tem um preço…a questão central desse blog é ficar constantemente se perguntando se vale a pena pagá-lo.
